
Deveria postar a continuação da Teoria da Prisão. Ela será continuada. Mas não hoje. Antes de postá-la preciso sentar em um bar, tomar algumas cervejas com o Sandre e o Sérgio e ver o que eles podem me acrescentar. Não com idéias. Mas com contestações. O texto de hoje será influenciado por outra conversa de bar. Uma que tive meses atrás com o Sérgio e a Ariane. Como sempre, eu falando demais e escutando de menos. O nome ficou pomposo.
“Nós somos o que as pessoas acham de nós, ou seja, caso ninguém ache nada da gente, não existimos.”
No momento em que Ariane disse isso, Sérgio balançou a cabeça como quem estivesse concordando e, por um momento, eu me senti sem graça por mais uma vez discordar de todo mundo. Depois passou. Por algumas semanas aquela frase latejou perdurantemente em minha cabeça. Havia um significado intrínseco nela. Porém, continuava discordando. Não fazia muito sentido para mim o fato de que nossa existência estivesse diretamente ligada à percepção do próximo. Metaforicamente, aquilo fazia sentido. Fisicamente, não.
Algumas semanas atrás, revi o meu ponto de vista e comecei a concordar com ela. Cinco pessoas em cima de um palco, cercadas por dezenas de milhares de outras pessoas, todas dispostas a brincar de “siga o mestre” a qualquer momento, me presentearam com aquele insight. Pessoas vão ao delírio, endeusando pessoas que são tão pessoas quanto elas, se entregando inteiramente às paixões proporcionadas pelo
panis et circensis. E de acordo com o meu credo de momento, caso aquelas dezenas de milhares de pessoas não estivessem dispostas a comparecer a um show ou a um culto, o ídolo deixaria de existir. Seria a morte do divino.
De alguns dias pra cá, comecei a acreditar que aquilo estava somente meio certo. Mesmo que as dezenas de pessoas não existissem, outras milhares existiriam e fariam jus àquele ditado que diz que ninguém é insubstituível. Ou mais, mesmo que a segunda dezena de milhares de pessoas também não existisse, a inexistência no plano físico não impediria que tudo aquilo vivesse na imaginação de algumas dezenas de milhares de outras pessoas com aspiração à fama. De volta ao ponto inicial.
Por alguns instantes, achei que tinha encontrado a solução para o meu dilema.
“Metade do que somos é o que as pessoas pensam sobre nós, ao passo que a outra metade é o que achamos que somos ou o que queremos que as pessoas achem que somos.”
A frase é um pouco determinista quanto às proporções matemáticas e ufanista em relação à questão do estereótipo. Aí está o ponto. O estereótipo e o culto ao ídolo ainda estão presentes. Eu nunca neguei a existência deles.
Quero que minhas idéias sobre o assunto sejam colocadas em meu epitáfio. Metaforicamente, a frase ainda fazia sentido para mim. Fisicamente, não por completo. Embora uma unidade de pessoa, possa ser dividida em muitas personalidades, tornando-se então um punhado de pessoas diferentes dependendo da ocasião e da necessidade, isto tudo é apenas uma mutação. Não podemos nos dividir ao meio, ou 40-60. Impossível dar um pedaço de nós ao mundo e ficar com o outro. Precisamos do primeiro pedaço. Tipo almas gêmeas.
“Somos duas pessoas. Uma é o que o mundo pensa de nós. E a outra, o que queremos que o mundo pense de nós.”
Resolvo o dilema físico sem interferir no metafórico. Cada pessoa continua dotada de múltiplas personalidades, que teoricamente deveriam trabalhar como uma equipe. Uma ajudando à outra.
O problema é: Quantas vezes você disse algo, esperando uma reação das pessoas e conseguiu outra? Quis ser engraçado, e provocou nada mais que um silêncio constrangedor. Quis chocar e provocou apenas risos.
Ou o contrário: Ouviu reações espontâneas que trouxeram evidências que foi, no mínimo, mal interpretado pelo mundo? Achou que era descolado e foi chamado de figura. Achou que era levado a sério e foi chamado de moleque. A frase assim, do jeito que está, ainda não cumpre a sua missão. Faltam palavras.
“Somos duas pessoas. Uma é o que o mundo pensa de nós. E a outra, o que queremos que o mundo pense de nós. O segredo é fazer com que a pessoa que somos para o mundo seja o mais parecida possível com aquela que queremos ser.”
Como almas gêmeas que se comunicam por olhar, que conseguem ler reações e antecipar-se aos pensamentos de seu correlato. Unitizadas e entrosadas.